Segunda-feira 16 de Outubro de 2017

Dia 04 de março de 2017 às 19:30 posse do neo acadêmico poeta e professor, Francisco de Assis Sousa

DISCURSO PROFERIDO POR FRANCELINA MACEDO NO LANÇAMENTO DO LIVRO JOÃO NONON, O MENINO DA LAGOA GRANDE

Postado por: Francelina Macedo em 17/02/2013 as 08:59:09
DISCURSO PROFERIDO POR FRANCELINA MACEDO NO LANÇAMENTO DO LIVRO JOÃO NONON, O MENINO DA LAGOA GRANDE

Senhoras e senhores, antes de adentrar no conteúdo especifico ao qual fui incumbida, ocorreu-me que para alcançar o êxito almejado, deveria eu, tecer breves considerações sobre o escritor Eneas Barrros.  E não vou aqui me ater ao economista, ao jornalista, ao gerente de marketing com formação em renomadas instituições de ensino em território nacional e no exterior.

Vamos falar do escritor, e para o fazer, notadamente na especificidade dessa obra, teremos que falar do neto de João Nonon. Do homem que teve acesso a arquivos de família, dos quais acredito, dificilmente outra pessoa teria tido. Do sobrinho que soube explora o conhecimento, valorizar e apreciar a amizade do tio Pebinha, tanto quanto, o zelo esmerado que tem a prima Mundica Fontes pelos tradicionais bens de família.

Um menino que humildemente se despojou de pretensões eruditas e se aventurou, como quem brincar com coisa séria, à procura de um umbigo de outro menino, plantado na porteira do curral da Fazenda Lagoa Grande. Alguém que na sua saudosice de neto e na sua inquietude de pesquisador, deve ter se perguntado por que seu avô escrevia estas coisas sobre: palestras de comadres, onça da mão torta, e assim, apresentou este Chão de Meu Deus ao mundo.

Escritor Enéas, sou neta criada por avós e, semelhante à Mundica, carrego o nome da minha, em mim, e com o nome, muitas lembranças, valores assimilados, transplantados, vividos e toda a responsabilidade da memória e da historia daquelas que nos antecederam.

Sobre o livro, a vida de um homem, bem sabemos, não cabe em trezentas páginas, como igualmente sabemos que é preciso conclui-lo e isso foi feito palpitantemente, como palpitante é a vida, ainda mais a de Fontes Ibiapina.

Li boa parte da obra fonteniana e lhe digo repleta de orgulho por muitos motivos, dos quais, lhe citarei dois. O primeiro, sou picoense de coração e Fontes usou a inteligência, o dom da escrita, o caráter leal às raízes para apresentar o gemer da vida em Samambaia, passando pela Lagoa Grande, percorrendo o meu Vale do Itaim e interligando gerações. A forma fiel e respeitosa como o fez com a cultura, o folclore e os costumes rederam a todos nós muitos frutos, o principal deles, a mudança da noção de respeito imposto para respeito conquistado, pela sua e pelas novas gerações.

         O segundo motivo pelo qual me orgulho decorre do primeiro. A obra fonteniana me foi apresentada por meus pais. Ainda esta semana, minha mãe, Dona Helena Macedo, dizia-me que a leitura que marcou sua vida foi Brocotós, livro no qual ela assimilava a vivência de nossos ancestrais, como também dos casos contados em terreiros de fazendas espalhadas pela grande região do Itaim.

Foi então que percebi que casos viravam contos na pena ávida do jovem Fontes, e contos eram recontados, reproduzidos e ensinados, fazendo jus à declaração do próprio autor, que nos dava pistas desta seiva literária bebida da fonte da vida, dos costumes, dos salões de festas, das conversas, dos namoros, da sanfona e da rabeca no terreiro, no entorno de uma fogueira, fosse junina ou em qualquer outra época, expressando que “a melhor forma de dizer a verdade e na ficção de mentira.”

Ao ler Nonom - o menino da Lagoa Grande, ratifiquei que da vida pulsa a obra de um homem que tirou leite de pedra, enquanto viveu a hostilidade climática da Lagoa Grande e da Vaca Morta. Imagino entretanto, que ao deixar seu torrão para se encontrar com mundo de Palhar de Arroz, não deixou para trás personagens como Bernadino, Justino, Romão pindoba e Juliana, carregando-os consigo durante a vida , pois na sua trajetória apenas incorporou o doutor, o professor e o juiz ao perspicaz, simpático e esperançoso menino sabido, construindo, como ele mesmo disse, em seu discurso de posse na cadeira nº 9 da Academia Piauiense de Letras, “a glória que fica, a honra que consola.”

O menino da Lagoa Grande, com seus corrupios de cacos de cuia, seu peão, sua baladeira de cabo de goiabeira, não morreu para dar lugar ao jurista, aprendeu a conviver com ele, forjando um caráter estruturado em valores familiares, tradições e conhecimento. Do inicialmente menino, que como ele próprio se auto definiu, era “travesso, cheio de mil diabruras, provido de uma infância bem vivida num casarão de pedras, construídos nos tempos idos da escravidão do homem de cor.” Mais adiante, no mesmo discurso de posse, completa  “(...) é o mesmo fedelho que de lá trouxe uma vasta experiência de tudo que viu, sentiu, apalpou e viveu.” Este testemunho transcrito na biografia escrita por Enéas reflete a multidimensional personalidade de Fontes, que como o próprio narrador especifica em um dos capítulos do livro, não encontrou ouro em jacundá, mas nos mostra, construindo e percorrendo os caminhos da literatura, que é possível sim, tirar leite de pedras e por que não? Também de vacas mortas.

Finalmente, ler Fontes, tanto quanto, ler Enéas, é uma atividade prazerosa. Recomendo a todos os apreciadores de uma boa leitura. A Academia de Letras da Região de Picos sente-se, na pessoa de cada acadêmico, aqui representada por mim, honrada em poder contribuir com este grande acontecimento cultural. Nossa casa o homenageou com o nome de nossa biblioteca e também com o patronato da cadeira nº 9, ocupada pela nossa querida confrade Mundica Fontes. Mas na realidade é a Academia que se sente homenageada, tanto quanto, Picos nesta noite.

Sem mais perlongas, uma frase simples não poderia faltar para encerrar nossa participação: obrigada João Nonon, por existir em nossas vidas; obrigada meu querido Pebinha, que correndo tão devagar, nos faz, através do seu exercício privilegiado de memória, retornar a tempos longínquos; obrigada Enéas, por ter vindo até nós e nos presentear com este belíssimo trabalho. Adquiram-no.

 

 

Câmara Municipal de Picos, Auditório Pedro Barbosa, 1 de fevereiro de 2013.

 

FRANCELINA MACEDO DE HOLANDA RIBEIRO

PRESIDENTE DA ACADEMIA DE LETRAS DA REGIÃO DE PICOS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

          

 

 

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