Domingo 23 de Setembro de 2018

Academia de Letras da Região de Picos - ALERP: "Guardiã da Cultura da Paz"

Deus criou o mundo com trabalho e viu que era bom

Postado por: Francelina Macedo em 28/02/2013 as 20:15:26
Deus criou o mundo com trabalho e viu que era bom

Francelina Macedo

 

Caríssimo leitor(a), hoje refletiremos sobre um problema que se arrasta por toda a existência das pessoas que habitam esse chão – a estiagem no semiárido piauiense.

Quando escutamos falar em semiárido, parece ser compulsório associar a expressão a pobreza e extrema pobreza. Isso denota o quanto a linguagem é um elemento cultural, e por sua vez, o quanto a cultura é coercitiva para com os indivíduos. É dizer que somos propensos a assimilar valores, tanto quanto contravalores.

A indústria da seca, que cresceu o hiato entre ricos e pobres, acentuadamente nos tempos do milagre econômico brasileiro, atualmente é motivo de vergonha nacional, mas é como prostituição, ou seja, o cabra machista vai no bordel, paga pelo serviço e entende que foi moralmente corrompido pela “profissional do sexo”, que não o conhece, não o chamou, apenas o atendeu porque ele foi.

É assim também que comparamos o carro pipa, o cata-vento que espera a brisa que não vem, o mandacaru queimado que tanto serviu de alimento para gente e hoje ainda serve ao rebanho, eles refletem paliativos muito culturais, cômodos para alguns e emergenciais e traiçoeiros para a maioria.

Eles sequer vestiram nova roupagem no limiar histórico. É como se ainda, expressiva parcela de nossas lideranças insistissem em remendar o quanto podem o famoso terno rasgado para não reprochar o look de seus atos administrativos.

Mais diretamente, o problema do abastecimento de agua do semiárido nem terno novo ganhou, mais uma vez alinhavamos a boutique corvo preto dos anos 70, sem o som das discotecas, com seus galãs enrugados, após termos perdidos os garbosos e longos cabeleiras e cavanhaques.

O grave é que de tanto repetirmos expedientes ruins eles se naturalizam, passando a ser entendidos como normais e até bons. E olhe que até o são, quando se estiver realmente com vontade de beber agua. Entretanto, quando a chuva cai, nossa população enche as vasilhas com as goteiras do próprio teto e nossa vã literatura diz que o povo também enche as esperanças.

Hoje eu já duvido disso. É como se num apelo tentássemos dizer:

_ Usemos as forças para implementar medidas sociais e econômicas de convivência com a estiagem tão cedo ela dê uma trégua por ano.

E essa mensagem fosse entendida como:

_ Poupemos as energias para apanhar no próximo ano, pois certamente teremos um novo round. 

A ideia de olhar pro céu, buscando previamente a justificativa para o famigerado decreto de calamidade precisa dar lugar a novas bases de pensamento, agir sobre a infraestrutura, focar abastecimento permanente de água potável, geração alternativa de energia, crédito e acesso à terra e principalmente, conectar os três setores da produção, pelo incentivo à indústria, que é a maior responsável pela elevação do PIB de uma economia.

Só é possível viver sem pedir esmola se cada unidade federativa gerar PIB, pois para comer, há que se plantar. Isto é criar alternativas de auto sustento para gerar riqueza, redistribuir renda e fechar o hiato social da desigualdade.

É concomitantemente, investir em educação para emancipar paulatinamente as pessoas das transferências de renda mínima, vez que são expedientes que atuam e dão resultados parciais sobre a extrema pobreza, mas não oferecem por si resultados satisfatórios acerca da inclusão e da cidadania.

É necessário que Estado e sociedade atuem mais parceira e sistematicamente sobre as condicionalidades de nossos programas sociais, para que se possa por estes caminhos endogeneizar mão de obra e incluir no mercado de trabalho. Do contrário, quando estes programas de transferência direta de renda sofrerem uma interrupção, o Brasil, orgulhosamente, uma das 10 maiores economias do globo, amargará um contingente não inferior a 11 milhões de famílias com um pé fincado na tênue e mal medida linha da pobreza.

Fica a mensagem de que novos tempos são prenunciados por novos pensamentos e atitudes. Pense bem, pensando lealmente o certo; dê o melhor, ainda que este melhor seja solidariamente o peixe; mas não esqueça de oferecer dignamente o seu trabalho para quem dele depende – você -, afinal, Deus criou o mundo com muito trabalho e viu que era bom.

 

 

 

          

 

 

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